Anemia ferropriva: cansaço extremo pode ser falta de ferro
Você está sempre cansado no inverno? A causa pode não ser o frio.
Com a chegada do inverno, é comum ouvir alguém dizer que está "mais cansado do que o normal". A tendência é atribuir o cansaço ao frio, ao isolamento, ao desânimo típico da estação. Mas e se esse esgotamento persistente for sinal de algo que pode ser identificado com um simples exame de sangue, como a anemia ferropriva?
Causada pela deficiência de ferro no organismo, ela é a forma de anemia mais comum no Brasil e no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ela afeta cerca de 2 bilhões de pessoas globalmente. E um dos seus sintomas mais marcantes é exatamente o cansaço que muita gente normaliza no dia a dia.
O ponto que poucos conhecem: é possível ter deficiência de ferro mesmo com hemograma normal. Isso significa que seu exame de sangue de rotina pode não mostrar nenhuma alteração e ainda assim seu organismo pode estar com os estoques de ferro esgotados. A ferritina, proteína que armazena ferro nas células, é a chave para esse diagnóstico.
Neste artigo, você vai entender o que é a anemia ferropriva, porque o hemograma sozinho pode não bastar, quais sintomas merecem atenção e quais exames pedir ao seu médico.
O que é anemia ferropriva?
A anemia ferropriva é uma condição em que o organismo não tem ferro suficiente para produzir hemoglobina, a proteína dos glóbulos vermelhos responsável por transportar oxigênio para todos os tecidos do corpo.
Sem ferro adequado, os glóbulos vermelhos ficam menores e com menos hemoglobina. O resultado: os órgãos e músculos recebem menos oxigênio do que precisam, e o corpo começa a "dar sinais" de que algo está errado.
A deficiência de ferro passa por três fases:
- Fase 1: depleção dos estoques, momento em que a ferritina cai, mas o hemograma ainda é normal;
- Fase 2: eritropoiese deficiente em ferro, fase em que o organismo começa a produzir glóbulos vermelhos com menos ferro, mas a hemoglobina ainda pode estar dentro do limite;
- Fase 3: anemia ferropriva instalada, momento em que a hemoglobina cai abaixo do limite e o hemograma passa a mostrar alterações.
Deficiência de ferro latente
Nas fases iniciais, quando os estoques de ferro já estão baixos, mas a produção de hemoglobina ainda está mantida. Isso explica por que tantas pessoas se sentem mal, mas recebem resultado de hemograma "normal". A pessoa sente cansaço, queda de cabelo, falta de concentração e o exame não mostra nada.
Por isso, quando há suspeita de deficiência de ferro, o médico pode solicitar exames mais específicos:
- Ferritina sérica: principal marcador dos estoques de ferro no organismo;
- Ferro sérico: quantidade de ferro circulando no sangue;
- Transferrina e TIBC: avaliam a capacidade de transporte de ferro;
- Saturação de transferrina: porcentagem de transferrina ligada ao ferro.
A ferritina baixa com hemograma normal é uma condição chamada de deficiência de ferro latente ou pré-anemia ferropriva e já pode causar sintomas importantes.
Sintomas da anemia ferropriva 
Os sintomas da anemia ferropriva surgem gradualmente e muitas vezes são confundidos com estresse, sedentarismo ou até com o ritmo acelerado do cotidiano.
Cansaço e fraqueza persistentes
O cansaço é o sintoma mais frequente. Ele aparece mesmo após uma boa noite de sono, dificulta atividades físicas e pode se intensificar no inverno, época em que o organismo já exige mais energia para manter a temperatura corporal.
Queda de cabelo além do normal
O folículo capilar é um dos tecidos mais sensíveis à falta de ferro. Quando os estoques estão baixos, o organismo prioriza órgãos vitais e "corta" o suprimento de nutrientes para o cabelo. O resultado é queda de cabelo difusa, que pode ser o primeiro sinal percebido, especialmente por mulheres.
Unhas fracas e quebradiças
Unhas que descamam, quebram com facilidade ou apresentam sulcos longitudinais podem indicar deficiência de ferro. Em casos mais avançados, pode aparecer a coiloniquia, unhas com formato côncavo no centro, que lembram uma colher.
Palidez, falta de ar e palpitações
Com menos oxigênio circulando, o coração precisa trabalhar mais. Isso pode gerar palpitações e falta de ar, mesmo em esforços leves, além de palidez na pele, nas gengivas e na parte interna das pálpebras.
Dificuldade de concentração e irritabilidade
O ferro é essencial para o funcionamento do sistema nervoso. A deficiência de ferro pode comprometer a memória, a concentração e o humor, sintomas que passam facilmente despercebidos ou são atribuídos ao estresse.
Síndrome das pernas inquietas
Pesquisas associam a deficiência de ferro, evidenciada por ferritina baixa, como fator de risco para o impulso incontrolável de mover as pernas, conhecido como síndrome das pernas inquietas, condição que prejudica ainda mais o sono e aprofunda o cansaço.
Quem tem mais risco de deficiência de ferro?
A deficiência de ferro não atinge todos da mesma forma. Alguns grupos têm maior vulnerabilidade:
- Mulheres em idade fértil: as perdas mensais de sangue aumentam significativamente a demanda por ferro;
- Gestantes e lactantes: a demanda de ferro aumenta muito durante a gravidez e a amamentação;
- Crianças e adolescentes: fases de crescimento acelerado exigem mais ferro;
- Idosos: absorção intestinal reduzida e dieta frequentemente menos variada;
- Vegetarianos e veganos: o ferro de origem vegetal (ferro não-heme) é absorvido com menos eficiência do que o de origem animal;
- Pessoas com doenças gastrointestinais: como doença celíaca, doença de Crohn e gastrite atrófica, que prejudicam a absorção intestinal de ferro;
- Atletas de alta performance: perdas de ferro pelo suor e impacto repetitivo dos pés (hemólise por esforço);
- Doadores frequentes de sangue: cada doação implica perda de ferro.
Como prevenir a anemia e aumentar a ingestão de ferro
A prevenção da anemia passa principalmente por uma alimentação equilibrada e rica em ferro, nutriente essencial para a produção de hemoglobina e o transporte de oxigênio no sangue. Para aumentar a ingestão de ferro no dia a dia, vale priorizar alimentos com maior teor de ferro, como:
- Entre as carnes: vermelhas, fígado, aves e frutos do mar (ferro heme, que é melhor absorvido pelo organismo);
- Entre os vegetais: feijão, lentilha, grão-de-bico, espinafre, tofu e sementes de abóbora (ferro não-heme, que possuem absorção menor).
Consumir alimentos ricos em vitamina C como laranja, acerola e tomate, junto com as refeições, ajuda a aumentar a absorção do ferro de origem vegetal. Evite consumir chá, café e laticínios, junto com a refeição, pois eles podem prejudicar a absorção.
A anemia ferropriva é uma condição comum, mas que exige atenção e cuidado contínuo para evitar impactos na qualidade de vida. A reposição adequada de ferro e a adoção de hábitos alimentares mais equilibrados, além do acompanhamento médico são o caminho para controlar a condição e recuperar a qualidade de vida.
Fontes consultadas
- Organização Mundial da Saúde (OMS) — Anaemia. https://www.who.int/health-topics/anaemia
- Ministério da Saúde do Brasil — Anemia. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/anemia
- Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (SBHH) — Diretrizes em Anemia por Deficiência de Ferro. https://www.hematologia.org.br/
- Cappellini MD, et al. Iron deficiency anaemia revisited. J Intern Med. 2020. PMID: 31710722. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31710722/
- Drauzio Varella — Anemia Ferropriva. https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/anemia-ferropriva/
- SciELO Brasil — Diagnóstico laboratorial da anemia ferropriva. https://www.scielo.br/