Hemofilia: sintomas, diagnóstico e fatores VIII e IX
Entenda o que é a hemofilia, seus principais sintomas e quais são os exames de coagulação.
A hemofilia é uma das condições mais relevantes dentro dos distúrbios de coagulação e, apesar de ser considerada uma doença rara, seu impacto clínico e epidemiológico é significativo.
De acordo com dados do Ministério da Saúde, o Brasil possui cerca de 14 mil pacientes diagnosticados com a doença, o que coloca o país na quarta posição mundial em número de pessoas com hemofilia.
Globalmente, a Federação Mundial de Hemofilia estima que existam cerca de 4 milhões de pessoas vivendo com a condição, em diferentes graus de gravidade. Por isso, compreender os fundamentos da sua genética até a abordagem diagnóstica é essencial para garantir mais qualidade de vida para estas pessoas.
A doença integra o grupo de distúrbios de coagulação hereditários caracterizados pela deficiência de fatores da cascata de coagulação sanguínea. Mas, o que isso significa?
Para simplificar, isso significa que o paciente já nasce com deficiência ou ausência de um fator que impede que o sangue coagule de forma eficiente, causando sangramentos, hematomas e outras complicações.
Reconhecer os sintomas de hemofilia desde as primeiras manifestações é fundamental para evitar sequelas que comprometem a qualidade de vida do paciente ao longo do tempo.
Continue a leitura para saber mais sobre a condição.
O que é hemofilia
A hemofilia é uma condição genética que passa de pais para filhos e está ligada ao cromossomo X. Ela acontece quando o organismo não produz, ou não utiliza corretamente, alguns fatores importantes para a coagulação do sangue.
Existem dois tipos principais: a hemofilia A, causada pela deficiência do fator VIII, e a hemofilia B, causada pela deficiência do fator IX. Ambas resultam em sangramentos prolongados e de difícil controle, podendo ser espontâneos ou desencadeados por traumas e cirurgias.
A doença afeta principalmente homens e não tem cura, mas tem tratamento disponibilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), considerado referência internacional.
O diagnóstico depende dos sintomas, da consulta clínica, do histórico familiar e dos exames de coagulação específicos, que permitem identificar o tipo e a gravidade da doença.
Conhecendo os tipos de hemofilia
A hemofilia é classificada como uma coagulopatia hereditária, ou seja, um distúrbio de coagulação transmitido geneticamente de mãe para filho, pois os genes responsáveis pela produção dos fatores VIII e IX estão localizados no cromossomo X.
Como essa é uma “condição de herança recessiva ligada ao sexo”, ela costuma se manifestar de forma diferente em homens e mulheres.
As pessoas do sexo biológico masculino, que apresentam cromossomos XY, desenvolvem a doença quando o cromossomo X apresenta a alteração. Já as pessoas do sexo biológico feminino, com cromossomos XX, geralmente não apresentam sintomas, mas podem ser portadoras e transmitir o gene para os filhos.
Hemofilia A
A hemofilia A ocorre quando o organismo não produz, ou não utiliza corretamente, o fator VIII, uma proteína essencial para que o sangue coagule de forma adequada.
Esse é o tipo mais comum da doença, representando cerca de 80% a 85% dos casos de hemofilia.
De acordo com o Ministério da Saúde, até 2020 havia 10.985 pessoas com hemofilia A cadastradas no Brasil. A estimativa é de que a condição ocorra em aproximadamente 1 a cada 5.000 a 10.000 nascimentos de meninos.
Hemofilia B
A hemofilia B tem como causa um defeito no gene F9, que resulta na deficiência ausência do fator IX, essencial para a coagulação sanguínea.
Ela também é chamada de doença de Christmas em homenagem a Stephen Christmas, o primeiro paciente que possibilitou que a condição fosse identificada e descrita na literatura médica, em 1952.
A hemofilia B é menos frequente que a outra, acontecendo em 1 para cada 30.000 a 40.000 nascimentos do sexo masculino. Clinicamente, ambas são indistinguíveis, e a diferenciação entre elas só é possível por meio da dosagem laboratorial específica dos fatores de coagulação.
Mecanismo de herança genética da hemofilia não é excludente: casos sem histórico familiar
Posso ter hemofilia mesmo que minha mãe não seja portadora do gene? A resposta é sim! Na maioria dos casos, a hemofilia é transmitida ao filho pela mãe. No entanto, de acordo com o Manual da Hemofilia, do Ministérios da Saúde, em cerca de 30% dos casos, a doença decorre de mutação, ou seja, sem histórico familiar conhecido.
Esse dado tem importância clínica direta, afinal, a ausência de casos na família não exclui o diagnóstico de hemofilia, uma vez que a mutação pode ocorrer de forma espontânea.
Conheça agora os sinais de alerta.
Principais sinais e sintomas de hemofilia 
Estes são os sinais mais frequentemente observados na prática clínica:
- Hemartrose: sangramento intra-articular, ou seja, nas articulações, principalmente em joelhos, tornozelos e cotovelos, é a manifestação mais comum;
- Hematomas musculares espontâneos ou após traumas leves, podendo comprimir nervos e vasos;
- Sangramento prolongado após procedimentos odontológicos, cirurgias ou vacinas;
- Equimoses (manchas roxas) desproporcionais aos traumas, frequentemente observadas quando a criança começa a se locomover;
- Epistaxe (sangramento nasal) difícil de controlar e de repetição;
- Hematúria (sangue na urina) sem causa aparente;
- Sangramento intracraniano nos casos mais graves, especialmente após acidentes e traumas.
No entanto, os sintomas de hemofilia podem variar conforme o grau de deficiência do fator de coagulação e estão diretamente relacionados à gravidade da doença.
A classificação em leve, moderada e grave orienta tanto o diagnóstico quanto o tratamento. Acompanhe a definição e os sintomas de cada uma.
Classificação por grau de gravidade
A gravidade da hemofilia é definida pelo nível de atividade residual do fator deficiente:
Hemofilia grave
A atividade do fator é inferior a 1%.
Sintomas da hemofilia grave: sangramentos espontâneos frequentes, especialmente articulares e musculares, com início geralmente nos primeiros dois anos de vida.
Hemofilia moderada
A atividade do fator está entre 1% e 5%.
Sintomas da hemofilia moderada: sangramentos espontâneos menos frequentes, mas com sangramento prolongado após traumas menores e procedimentos.
Hemofilia leve
A atividade do fator está entre 5% e 40%.
Sintomas da hemofilia leve: sangramentos geralmente desencadeados por traumas significativos ou cirurgias. Pode ser diagnosticada tardiamente.
Sinais de alerta em crianças
Crianças demandam atenção redobrada quando o assunto são traumas, machucados e sangramentos. Os primeiros sinais geralmente surgem quando elas começam a se movimentar de forma mais ativa.
Manchas roxas nos braços e pernas, hematomas subcutâneos após pequenas quedas e sangramentos prolongados após alguns procedimentos médicos são indicadores clínicos que merecem investigação imediata.
O histórico familiar também é importante. Famílias com casos conhecidos de hemofilia devem informar o pediatra da criança para realizar os exames de coagulação nos primeiros três meses de vida.
Diagnóstico: exames de coagulação
O diagnóstico laboratorial da hemofilia segue uma lógica sequencial:
- Primeiro, a triagem por meio dos exames de coagulação de rotina;
- Depois, a confirmação por dosagem específica dos fatores deficientes.
Essa abordagem permite não apenas confirmar o diagnóstico, mas também classificar a gravidade da doença e orientar o esquema terapêutico. Conheça a seguir alguns dos exames que podem ser solicitados na investigação da hemofilia.
1. Tempo de Tromboplastina Parcial Ativada (TTPa)
O TTPa é o principal exame de triagem da hemofilia. Ele analisa uma parte importante do processo de coagulação do sangue, chamada via intrínseca, onde atuam fatores como o VIII e o IX.
Nos casos de hemofilia A e B, é comum que o TTPa apareça aumentado, enquanto o Tempo de Protrombina (TP) permanece normal.
Quando esse padrão acontece, o médico pode suspeitar de algumas condições, como:
- Deficiência dos fatores VIII, IX, XI ou XII;
- Doença de von Willebrand;
- Presença de anticorpos que interferem na coagulação.
Para confirmar o diagnóstico, são feitos exames mais específicos, como a dosagem dos fatores de coagulação, que ajudam a identificar exatamente qual é a alteração.
2. Tempo de Protrombina (TP) e Tempo de Trombina (TT)
O Tempo de Protrombina e o Tempo de Trombina são exames que ajudam a avaliar diferentes etapas da coagulação do sangue.
O TP analisa a chamada via extrínseca e, nos casos de hemofilia, costuma apresentar resultado normal. Isso é um dado importante, pois auxilia na diferenciação da doença de outras alterações da coagulação.
Já o TT avalia a etapa final do processo de formação do coágulo, quando o fibrinogênio se transforma em fibrina. Assim como o TP, ele também costuma ser normal em pessoas com hemofilia A e B.
Quando o TTPa está alterado, mas o TP e o TT estão normais, isso indica que o problema provavelmente está nos fatores da via intrínseca, como o fator VIII ou IX.
3. Dosagem do Fator VIII
A dosagem do fator VIII é o exame que confirma o diagnóstico de hemofilia A.
O exame mede o quanto esse fator está funcionando e ajuda a entender a gravidade da doença. De forma geral:
- Valores abaixo de 40% já indicam alteração;
- Valores menores que 1% caracterizam a forma grave.
4. Dosagem do Fator IX
A dosagem do fator IX é usada para confirmar a hemofilia B.
Assim como no fator VIII, esse exame mostra se há deficiência e permite classificar a doença em leve, moderada ou grave.
Em recém-nascidos, os níveis de fator IX são naturalmente mais baixos. Por isso, às vezes é necessário repetir o exame para confirmar o diagnóstico.
5. Pesquisa de inibidores
Alguns pacientes com hemofilia podem desenvolver os chamados inibidores, que são anticorpos contra o fator de coagulação usado no tratamento.
Isso acontece em cerca de:
- 30% dos casos graves de hemofilia A;
- 3% a 5% dos casos de hemofilia B.
A presença desses anticorpos pode reduzir a eficácia do tratamento, por isso é importante monitorar regularmente. Identificar os inibidores é essencial para ajustar o tratamento e garantir melhores resultados para o paciente.
Diagnóstico diferencial e cuidados na interpretação dos resultados
O diagnóstico diferencial da hemofilia inclui descartar outros distúrbios de coagulação. As condições a seguir podem alterar exames os exames e precisam ser consideradas na investigação:
- Doença de von Willebrand: é o distúrbio de coagulação mais comum. Assim como a hemofilia, pode causar alteração no TTPa e redução do fator VIII. Para diferenciar, são necessários exames específicos que avaliam o fator de von Willebrand e seu funcionamento;
- Deficiência dos fatores XI ou XII: essas alterações também podem prolongar o TTPa sem mudar o TP. No entanto, os sintomas costumam ser diferentes dos observados na hemofilia;
- Coagulação intravascular disseminada (CIVD): é uma condição mais grave, que afeta vários componentes da coagulação ao mesmo tempo. Nesses casos, exames como TP, TTPa, fibrinogênio e plaquetas aparecem alterados;
- Uso de anticoagulantes: medicamentos como a heparina podem interferir nos exames, principalmente prolongando o TTPa. Por isso, é importante considerar o uso dessas medicações durante a avaliação clínica.
A interpretação dos exames de coagulação exige atenção ao contexto clínico, ao histórico familiar e ao uso de medicamentos. Resultados isolados, sem correlação clínica, podem levar a conclusões equivocadas, por isso, é importante que um médico especialista seja consultado.
Principais tratamentos para hemofilia
Embora a hemofilia não tenha cura, o tratamento atual permite que os pacientes tenham qualidade de vida satisfatória quando diagnosticados e acompanhados corretamente.
O princípio básico consiste na reposição do fator deficiente por via intravenosa. As principais modalidades de tratamento são:
- Reposição do fator após o início de um sangramento, para interrompê-lo;
- Profilaxia primária com infusões regulares do fator para prevenir sangramentos espontâneos, iniciada antes do primeiro sangramento articular significativo. É a modalidade considerada padrão-ouro atualmente;
- Profilaxia secundária e terciária, indicadas após já ter ocorrido lesão articular;
- Terapia com Emicizumabe, anticorpo biespecífico que mimetiza a função do fator VIII, indicado para pacientes com hemofilia A e inibidores refratários. Disponível pelo SUS desde 2021.
O Brasil investiu aproximadamente R$ 1,7 bilhão em 2024 na aquisição de medicamentos para o tratamento de hemofilias e outras coagulopatias hereditárias, reforçando o compromisso do SUS com essa população.
Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e educativo. Não substitui a avaliação, o diagnóstico ou a orientação de um profissional de saúde habilitado. Caso você tenha dúvidas sobre sintomas ou resultados de exames, consulte um médico especialista.
A hemofilia é um distúrbio de coagulação que não tem cura, mas tem tratamento. Reconhecer os sintomas e compreender o papel dos exames no diagnóstico precoce pode salvar articulações, prevenir complicações graves e garantir ao paciente acesso ao tratamento adequado, inclusive pelo SUS. Fique atento aos sinais.